segunda-feira, 16 de maio de 2011

A tentação do Músico

A história do casal Safira e Ananias é descrita nos Atos dos Apóstolos 5,1-11. Naquele tempo os primeiros cristãos vendiam suas propriedades e depositavam aos pés dos apóstolos a quantia da venda, conquistando assim a admiração de todos. Eles procediam desta maneira, pois haviam descoberto o Tesouro Escondido, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, pérola preciosa.

O referido casal tramou vender seu campo e reter para si certa quantia do dinheiro. Deus não havia ordenado aos dois que vendessem a propriedade, mas eles estavam tocados pela admiração do povo por aqueles que se dedicavam totalmente ao Cristianismo. Os dois pretendiam ser “cristãos de aparência”, queriam parecer santos, quando, no fundo, estavam apegados ao materialismo. Não possuíam confiança absoluta no Senhor. Talvez tivessem guardado um pouco do dinheiro com medo de o Cristianismo não dar certo; então poderiam recomeçar a vida com o que lhes havia sobrado da venda do local.

Pensando assim, dirigiam-se um após o outro aos Apóstolos, primeiro Ananias, depois Safira. O primeiro que chegou teve seu pecado revelado: haviam mentido não para os Apóstolos, mas para o Espírito Santo. Safira chegou por último com a mesma mentira, encobrindo a verdade, tentando manter as aparências de pessoa muito santa; mas sua mentira, sua vida só de aparências, foi desmascarada por Pedro. Os dois tiveram a mesma sorte: pereceram devido à mentira.

O ministro de Deus na música não pode servir a Deus pela metade. É uma grande tentação querer manter as aparências para servir o Senhor. Não se pode querer viver uma vida carismática aliada a uma vida de pecado ao mesmo tempo; uma vida de materialismo e de mentiras convivendo ao mesmo tempo com o serviço de Deus. Não podemos ter máscaras, temos de ser autênticos, não podemos ter procedimentos fingidos. É o que nos diz São Paulo: “Não desanimamos deste ministério que nos foi conferido por misericórdia. Afastamos de nós todo procedimento fingindo e vergonhoso. Não andamos com astúcia, nem falsificamos a Palavra de Deus” (II Coríntios 4,1-2).

Trecho extraído do Livro: “Formação Espiritual de Evangelizadores na Música” de “Roberto A. Tannus e Neusa A. de O.Tannus”

sábado, 14 de maio de 2011

Amigo


É o silêncio da noite que chama à memória – já purificada pelos anos e pelos desertos atravessados – a palavra mágica “amigo”. Passo como num filme, rapidissimamente, os nomes que ali foram gravados, desde que me conheço como gente. Nomes dos que considerava amigos eternos, dos quais parecia impossível separar-me e esquecer, das amigas que pareciam feitas numa fôrma única para mim e que, pelas circunstâncias da vida, se desfizeram como neblina ao surgir do sol. Como num cântico de lamentação, passam diante de mim tantos rostos, agora também envelhecidos pelo vento da vida, que me chamam a relembrar o passado, mas sem perder de vista o momento presente. Os amigos são como a água que corre rápida, procurando outros oceanos e outras paragens, não podem ficar parados.

A amizade é vida que doa vida e abre novos caminhos para os outros que vierem. “Recordo os tempos de então, quando com amigos ia cantando para o Templo”, diz o salmista; mas logo em seguida sente toda a solidão, vê-se sozinho e abandonado por aqueles que considerava mais que a si mesmo. A beleza da amizade nos seduz e encanta, embora saibamos que poucos são os que vão permanecer para sempre em nossa vida. Já a Escritura, sabiamente, nos adverte: “Mil sejam os camaradas com quem você se relaciona, mas um entre eles o teu confidente”, aquele que é capaz de acolher tuas feridas e de acreditar nos teus sonhos, sem duvidar da tua honestidade e sinceridade.

O amigo verdadeiro é aquele que não duvida, e por isso, quando traído, sente ainda mais forte a dor que o penetra. Não é capaz de pensar mal do seu amigo; a amizade cria um só coração e uma só alma ou, como dizem os filósofos, é “um só coração em dois corpos”.

A amizade é força benfazeja e sombra amada sob a lua, onde poderá descansar e ser compreendido em todas as suas decepções e feridas. A Bíblia afirma que quem encontra um amigo “encontra um tesouro”.

O elogio que é feito dos amigos ultrapassa o humano e nos lança no amor que tem suas raízes no mistério trinitário. A verdadeira amizade é uma aliança que nada – nem a morte, a fome, a doença, a pobreza ou a riqueza – nem ninguém poderá romper. É uma aliança que carrega em si o sabor do divino, do amor que não pode ser deixado ao vento dos sentimentos.

A amizade não conhece distância nem precisa de muitos sinais, os amigos sabem que são amigos quer estejam perto ou longe, quer se vejam freqüentemente ou passem anos sem se encontrar. Na amizade não há interesses pessoais nem desejos mesquinhos escondidos.

É entrar numa profunda sintonia de sentimentos, desejos e de vida. Os amigos não necessitam dizer o que se passa neles, o simples olhar revela o que um necessita do outro.

Amigos e amizade são palavras sagradas, deveriam ser purificadas de tantas sujeiras acumuladas pela materialização do amor, que se faz simplesmente desejo de si mesmo e não plenitude do outro.

Os amigos são provados pelo fogo das adversidades; nunca podemos desconfiar nem nos envergonhar dos amigos, mesmo que eles errem ou se encontrem nas situações mais vergonhosas, eles são nossos amigos, dos quais damos testemunho com amor e afeto. Não se pode romper a amizade porque o “amigo” está com AIDS ou abandonou a fé ou, num momento de loucura, cometeu alguns erros que podem até nos envergonhar. O amigo assume e carrega o amigo em todos os momentos da vida, porque ele faz parte da sua história, do seu cotidiano, do seu caminho; a verdadeira amizade é tesouro escondido que se faz manifesto. Os amigos não são amigos na noite ou no anonimato, são amigos à luz do sol; todos sabem que são amigos e são orgulhosos por serem amigos. Cantar o cântico dos amigos é sair do seu egoísmo e colocar a vida em risco pelos outros.

A melhor definição de amigo, a encontramos no Evangelho, quando Jesus, com sabedoria, diz: “Não há maior amor que dar a vida pelos amigos”. Não é dar presentes de ouro, carros importados ou cheques gordos no dia do aniversário... Entre amigos não se dá presente, se dá amor e vida. Não são dadas flores, mas o perfume das flores. Assim Jesus, nosso amigo, não nos deu “coisas” para serem guardadas como lembrança, mas nos deu o melhor de si, “carne e sangue”, a vida plena, em abundância.

João da Cruz, místico carmelitano, experimentado nas dores e nos sofrimentos, soube comer o pão amargo das traições dos que ele considerava seus amigos, mas que, corrompidos pelas luzes de cargos e do poder, o deixaram sozinho com suas mágoas e feridas, que não o abateram e não lhe fizeram lastimar a solidão, mas que o levaram como bom espanhol da velha Castilha, terra de vinhos preciosos, a sentenciar: “os amigos são como o vinho, mais velhos ficam melhor”. O vinho envelhecido vira licor, assim os amigos comprovados pelo tempo ficam, sem dúvida, mais amigos ainda.

Não se pode viver sem amigos, é uma necessidade encontrar na vida a “alma gêmea” que sabe te entender e compreender, que tem liberdade de te dizer o que se passa e te apontar os teus erros. Amigos e amigas fazem parte do nosso mundo e nos realizam em nossos desejos humanos e espirituais. Sem amigos e amigas somos incompletos, nos sentimos frustrados e sem sentido. Vale a pena, de vez em quando, parar e nos perguntar: “Quem são os nossos amigos e desde quando são nossos amigos?”. Não se chama amigo quem encontramos duas horas atrás... a amizade deve ser amadurecida, purificada, filtrada para chegar a ser adulta. Quando formos capazes, como Jesus, de dizer aos nossos amigos: “Vos chamo amigos, porque vos revelei tudo o que ouvi de meu Pai”, aí poderemos crer que somos amigos de verdade e não simples conhecidos e camaradas. A amizade é ver o nosso rosto resplandecer nos olhos do amigo e vice-versa.

Tu és meu amigo porque tu és eu e eu sou tu.

Frei Patricio Sciadini, OCD