É o silêncio da noite que chama à memória – já purificada pelos anos e pelos desertos atravessados – a palavra mágica “amigo”. Passo como num filme, rapidissimamente, os nomes que ali foram gravados, desde que me conheço como gente. Nomes dos que considerava amigos eternos, dos quais parecia impossível separar-me e esquecer, das amigas que pareciam feitas numa fôrma única para mim e que, pelas circunstâncias da vida, se desfizeram como neblina ao surgir do sol. Como num cântico de lamentação, passam diante de mim tantos rostos, agora também envelhecidos pelo vento da vida, que me chamam a relembrar o passado, mas sem perder de vista o momento presente. Os amigos são como a água que corre rápida, procurando outros oceanos e outras paragens, não podem ficar parados.
A amizade é vida que doa vida e abre novos caminhos para os outros que vierem. “Recordo os tempos de então, quando com amigos ia cantando para o Templo”, diz o salmista; mas logo em seguida sente toda a solidão, vê-se sozinho e abandonado por aqueles que considerava mais que a si mesmo. A beleza da amizade nos seduz e encanta, embora saibamos que poucos são os que vão permanecer para sempre em nossa vida. Já a Escritura, sabiamente, nos adverte: “Mil sejam os camaradas com quem você se relaciona, mas um entre eles o teu confidente”, aquele que é capaz de acolher tuas feridas e de acreditar nos teus sonhos, sem duvidar da tua honestidade e sinceridade.
O amigo verdadeiro é aquele que não duvida, e por isso, quando traído, sente ainda mais forte a dor que o penetra. Não é capaz de pensar mal do seu amigo; a amizade cria um só coração e uma só alma ou, como dizem os filósofos, é “um só coração em dois corpos”.
A amizade é força benfazeja e sombra amada sob a lua, onde poderá descansar e ser compreendido em todas as suas decepções e feridas. A Bíblia afirma que quem encontra um amigo “encontra um tesouro”.
O elogio que é feito dos amigos ultrapassa o humano e nos lança no amor que tem suas raízes no mistério trinitário. A verdadeira amizade é uma aliança que nada – nem a morte, a fome, a doença, a pobreza ou a riqueza – nem ninguém poderá romper. É uma aliança que carrega em si o sabor do divino, do amor que não pode ser deixado ao vento dos sentimentos.
A amizade não conhece distância nem precisa de muitos sinais, os amigos sabem que são amigos quer estejam perto ou longe, quer se vejam freqüentemente ou passem anos sem se encontrar. Na amizade não há interesses pessoais nem desejos mesquinhos escondidos.
É entrar numa profunda sintonia de sentimentos, desejos e de vida. Os amigos não necessitam dizer o que se passa neles, o simples olhar revela o que um necessita do outro.
Amigos e amizade são palavras sagradas, deveriam ser purificadas de tantas sujeiras acumuladas pela materialização do amor, que se faz simplesmente desejo de si mesmo e não plenitude do outro.
Os amigos são provados pelo fogo das adversidades; nunca podemos desconfiar nem nos envergonhar dos amigos, mesmo que eles errem ou se encontrem nas situações mais vergonhosas, eles são nossos amigos, dos quais damos testemunho com amor e afeto. Não se pode romper a amizade porque o “amigo” está com AIDS ou abandonou a fé ou, num momento de loucura, cometeu alguns erros que podem até nos envergonhar. O amigo assume e carrega o amigo em todos os momentos da vida, porque ele faz parte da sua história, do seu cotidiano, do seu caminho; a verdadeira amizade é tesouro escondido que se faz manifesto. Os amigos não são amigos na noite ou no anonimato, são amigos à luz do sol; todos sabem que são amigos e são orgulhosos por serem amigos. Cantar o cântico dos amigos é sair do seu egoísmo e colocar a vida em risco pelos outros.
A melhor definição de amigo, a encontramos no Evangelho, quando Jesus, com sabedoria, diz: “Não há maior amor que dar a vida pelos amigos”. Não é dar presentes de ouro, carros importados ou cheques gordos no dia do aniversário... Entre amigos não se dá presente, se dá amor e vida. Não são dadas flores, mas o perfume das flores. Assim Jesus, nosso amigo, não nos deu “coisas” para serem guardadas como lembrança, mas nos deu o melhor de si, “carne e sangue”, a vida plena, em abundância.
João da Cruz, místico carmelitano, experimentado nas dores e nos sofrimentos, soube comer o pão amargo das traições dos que ele considerava seus amigos, mas que, corrompidos pelas luzes de cargos e do poder, o deixaram sozinho com suas mágoas e feridas, que não o abateram e não lhe fizeram lastimar a solidão, mas que o levaram como bom espanhol da velha Castilha, terra de vinhos preciosos, a sentenciar: “os amigos são como o vinho, mais velhos ficam melhor”. O vinho envelhecido vira licor, assim os amigos comprovados pelo tempo ficam, sem dúvida, mais amigos ainda.
Não se pode viver sem amigos, é uma necessidade encontrar na vida a “alma gêmea” que sabe te entender e compreender, que tem liberdade de te dizer o que se passa e te apontar os teus erros. Amigos e amigas fazem parte do nosso mundo e nos realizam em nossos desejos humanos e espirituais. Sem amigos e amigas somos incompletos, nos sentimos frustrados e sem sentido. Vale a pena, de vez em quando, parar e nos perguntar: “Quem são os nossos amigos e desde quando são nossos amigos?”. Não se chama amigo quem encontramos duas horas atrás... a amizade deve ser amadurecida, purificada, filtrada para chegar a ser adulta. Quando formos capazes, como Jesus, de dizer aos nossos amigos: “Vos chamo amigos, porque vos revelei tudo o que ouvi de meu Pai”, aí poderemos crer que somos amigos de verdade e não simples conhecidos e camaradas. A amizade é ver o nosso rosto resplandecer nos olhos do amigo e vice-versa.
Tu és meu amigo porque tu és eu e eu sou tu.
Frei Patricio Sciadini, OCD
Nenhum comentário:
Postar um comentário